O NEXO Jornal publicou artigo “As mulheres excluídas do cânone das ciências sociais” das pesquisadoras Luna Ribeiro Campos e Verônica Toste Daflon. O texto trata das obras de duas pensadoras importantes que foram deixadas de fora do cânone do período clássico da sociologia: Flora Tristan e Harriet Martineau. “Um legado de Tristan e Martineau”, dizem as autoras “está nesse ato de pensar continuamente sobre si ao longo da produção de uma pesquisa, conhecido nas ciências sociais como “reflexividade” — um tipo de habilidade e de prática hoje considerado essencial para uma boa investigação sociológica, mas que era incomum entre os autores homens considerados clássicos.” Acesse o texto completo no site do NEXO Jornal.

“Assim como o governo e os seus apoiadores tecem críticas à sociologia, diversos atores como políticos, jornalistas, sindicatos e sociedades científicas se esforçam para refutar as acusações do governo, defender os investimentos na sociologia e na filosofia e valorizar os profissionais das duas áreas. Ao fazê-lo, esses atores mobilizam diferentes argumentos e entendimentos a respeito das disciplinas, oferecendo uma rara oportunidade para nós, sociólogos, conhecermos a visão de não sociólogos sobre nosso ofício”

O dossiê “Covid-19, crises e crítica: Visões/abordagens do Sul-Global” traz reflexões de autores de diversos países sobre temáticas ambientais, científicas, sociais que envolvem os impactos da Covid em países do Sul. A pesquisadora Verônica Toste Daflon contribui com um texto sobre a disputa política em torno da Sociologia no Brasil no contexto da pandemia da Covid-19. Estas e outras reflexões estão disponíveis em: https://www.reflexpandemia.org

A pesquisadora do LabGen e editora da revista Horizontes ao Sul, Luna Campos, apresenta o texto da professora Giulle da Matta, da UFOP, sobre Marianne Weber. Em “O legado de Marianne Weber: entre proto-sociologia e a práxis política”, Giulle apresenta a posição de Marianne na “constelação intelectual alemã sob a qual teve início a institucionalização da sociologia” e enfrenta alguns dos mitos que reduzem essa intelectual a uma “agitadora cultural”, “ingênua” ou ainda a uma mera sombra do marido, Max Weber. Sua perspectiva institucionalista, calcada na análise do direito, lança sobre o casamento uma série de perguntas instigantes que até hoje não foram devidamente analisadas nem pela sociologia nem pelos estudos feministas, anunciando uma agenda de pesquisas que permanece por ser explorada. Acesse o texto no site Horizontes ao Sul.

“Saber Comum – Educação a Distância e Divulgação Científica” é um projeto que busca, de modo interdisciplinar, oferecer a estudantes de pós-graduação de todas as áreas do conhecimento disciplinas de formação geral, que auxiliem na reflexão sobre a esfera do comum, saberes e políticas que dizem respeito à vida coletiva, à divisão de poderes na democracia e aos laços sociais. A professora Verônica Toste, do LabGen, é responsável pela aula “Desigualdade de Gênero” da disciplina Democracia, Desigualdades e Direitos.

As aulas são 100% remotas e transmitidas pela TV aberta. Assim, quem não é estudante de pós-graduação também pode assistir as aulas. O projeto é realizado pela cooperação entre as seguintes instituições: UFRJ, Unirio, UFF, UFRRJ, UERJ, Fiocruz, Fundação CECIERJ e TV Alerj. A coordenação é realizada pelo Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

Disciplinas: Democracia, Desigualdades e Direitos e Saúde e Ciência em Tempos de Pandemia. Horário dos programas na TV Alerj: quartas e sextas-feiras, 8h30 a 9h; Videoaulas semanais: exibidas na TV Alerj (TV aberta canal 15.2 e NET canal 12) e disponíveis no YouTube do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e TV Alerj. Inscrições no curso: site do Forum UFRJ.

Podcast Quarentenas: terceiro episódio discute as relações entre o Estado, maternidades e redes de cuidado
 
Está no ar o terceiro episódio do “Quarentenas: gênero, sexualidade e feminismos em tempos de pandemia”, projeto da Rede Fluminense de Núcleos de Pesquisa de Gênero, Sexualidade e Feminismos nas Ciências Sociais (Redegen).

Neste terceiro episódio, contamos com a participação da antropóloga e professora Laura Lowenkron (CLAM/IMS/UERJ), que entrevista a antropóloga e pesquisadora Camila Fernandes, pós-doc do NUSSEX/PPGAS/MN/UFRJ. O programa propõe uma conversa sobre maternidades, trabalho de cuidado e quarentena, procurando tensionar os desafios da construção de uma pauta interseccional sobre o cuidado das crianças que considere diferentes reivindicações políticas em torno da maternidade, da reprodução, do cuidado e dos direitos sociais. O podcast traz entrevistas e conversas com pesquisadoras/es, ativistas para tratar dos dilemas mais urgentes da nossa contemporaneidade e será divulgado mensalmente no Portal Catarinas. Plural por definição, “Quarentenas” espelha as múltiplas faces do cenário pandêmico atual, atravessado por diferenças e desigualdades interseccionadas.

Disponível nas plataformas Spotify e Soundcloud

HOMENS PODEM SER FEMINISTAS? (veja o texto ampliado aqui)

H: UM HOMEM PODE SER FEMINISTA? POR QUÊ?

Antes de tudo, ser “feminista” não é expressar uma característica essencial que o indivíduo “possui”. É adotar uma identidade política e ter essa identidade reconhecida por uma comunidade. Atualmente, o consenso entre a maior parte das mulheres que se reivindicam como feministas é que não é possível para um homem se dizer feminista — embora muitas concordem que ele pode apoiar o feminismo.

É provável que isso aconteça por alguns motivos. O primeiro, é uma reivindicação que me parece bastante legítima: a de que sejam as próprias mulheres as lideranças de um movimento social em prol de mulheres. Considerada a baixa participação de mulheres na política, é fundamental que liderem seu próprio movimento social.

Outro motivo, no entanto, pode ser a ideia corrente de que ser “feminista” é ter “expurgado de si” o machismo e as contradições humanas. Nesse último caso, um homem não poderia ser feminista porque ocupa uma posição estrutural que lhe confere vantagens potenciais e porque supostamente sempre conterá, dentro de si, no seu íntimo, algum resquício de machismo.

Enquanto a justificativa do protagonismo político é bastante razoável, a segunda me parece problemática: por esse critério, talvez ninguém pudesse se considerar “feminista”, visto que vivemos em uma sociedade estruturalmente machista e os incentivos para agir estão dados dentro dessa estrutura. Se “feminismo” torna-se sinônimo de possuir “virtude” e “pureza” dentro de um mundo não-feminista, talvez ser, individualmente,“feminista” seja uma meta inatingível. É provavelmente por isso que Roxanne Gray se diz uma “má feminista”.

Deixando isso de lado, concordo com a antropóloga Rita Segato quando ela diz que é preciso tomar muito cuidado com o que ela chama de “feminismo do inimigo”, que constrói os homens como adversários “naturais” das mulheres. Essa visão coloca “homens” e “mulheres” em posições fixadas, impõe obstáculos à mudança, e dificulta a construção de alianças. É preciso encorajar e apoiar aqueles homens que desejam mudar e que começam a enxergar como as regras sociais da masculinidade são cruéis e nocivas para eles também. Se isso significar uma aproximação do feminismo, melhor.

Feministas negras como bell hooks e Angela Davis reconheceram desde cedo a necessidade de falar com e para os homens, visto que elas compartilham com os homens negros as situações de segregação racial e violência do Estado e sofrem junto com eles os efeitos do encarceramento e do racismo. Isso tudo as estimulou a olhar muito antes das outras feministas para a necessidade de combinar as lutas sociais contra o machismo, o racismo e a desigualdade e a buscar entender como as regras hegemônicas da masculinidade podem vitimar muitos homens.

FALAR SOBRE FEMINISMO: ESSE É UM LUGAR DE FALA SOMENTE DAS MULHERES? OU É UMA QUESTÃO DE CIDADANIA DA QUAL TODOS DEVEM PARTICIPAR?

Se a nossa intenção é mudar o mundo, creio que é preciso ter uma grande conversa coletiva sobre o feminismo, que envolva todas as pessoas. A experiência e a fala são importantes para iniciar uma conversa e tornar os espaços de enunciação e poder menos segregados. No entanto, não acredito que possuir um determinado marcador de gênero torne uma pessoa automaticamente a porta-voz de um grupo. Mesmo porque é incorreto supor que todas as mulheres, por exemplo, pensam igual. Além disso, para que uma transformação ocorra, ela deve necessariamente passar também pelos homens. E, para tal, eles também precisam falar e elaborar as suas experiências. Parte da construção social do que é ser “homem” na nossa cultura passa justamente por evitar lidar com sentimentos, com a intimidade e com a própria biografia. Então, ouvir, mas também falar, é importante para eles também.

É MAIS FÁCIL O HOMEM JOVEM MUDAR? É MAIS DIFÍCIL QUE O HOMEM MAIS VELHO MUDE SUAS CONVICÇÕES? POR QUÊ?

A sociologia entende que os seres humanos passam por um processo que chamamos de “socialização”, isto é, por uma formação do “eu” que acontece através da interação com as intenções e expectativas dos outros. Esse é um processo que se inicia na infância e que marca o indivíduo, o seu senso de si, e, ao mesmo tempo, o torna capaz de viver em sociedade e de saber o que esperar das outras pessoas. Ela dá previsibilidade e estabilidade à nossa existência enquanto sujeitos sociais.

Uma das formas de socialização mais marcadas na nossa sociedade é a socialização de gênero, isto é, o aprendizado do que é ser “um homem” e ser “uma mulher” “legítimo” no mundo em que vivemos. Gênero é uma dimensão tão fundamental da vida que aquelas pessoas que transgridem as expectativas da sua ordem social de gênero são duramente coagidas e às vezes punidas de forma brutal. Assim, eu diria que mudar comportamentos é tanto uma questão subjetiva para os homens, como também uma questão de permissão social. Mudanças de comportamento ou a alteração da autoimagem costumam exigir a presença de um grupo que colabore para isso e reconheça a mudança.

Respondendo à sua pergunta, creio que de modo geral sim, é mais fácil para um homem jovem do que para um homem mais velho mudar, pois o processo de “socialização” é contínuo e múltiplo — acontece na família, na escola, no trabalho, na universidade, na mídia, até mesmo na internet e segue ocorrendo ao longo da vida — e o sujeito mais jovem normalmente tem a oportunidade de se ligar a novos grupos sociais e se “reinventar” com mais frequência do que o mais velho.

No entanto, eu diria ainda que isso depende de que “jovem” estamos falando. Às vezes, pessoas das classes médias e elites têm mais recursos e mais liberdade para se mover na sociedade e mudar de grupo social, adquirir novas fontes de socialização, e se transformar do que, por exemplo, pessoas oriundas de determinados segmentos das classes populares, do interior, de áreas rurais, de localidades violentas. A mudança, enfim, não pode ser vista apenas como uma questão de desejo individual, mas deve ser encarada nas suas limitações estruturais. Acho que o filme “Moonlight”, vencedor do Oscar de 2017, por exemplo, faz uma discussão muito importante sobre a construção da masculinidade de homens negros nos Estados Unidos, conectando-a a formas de opressão. Talvez seja o momento de iniciar esse debate no Brasil.

O QUE NÓS MULHERES PODEMOS FAZER PARA QUE OS HOMENS TENHAM VONTADE DE NOS OUVIR, DE NOS ENTENDER? VOCÊ ACHA QUE ISSO DEPENDE APENAS DELES?

A dificuldade de escuta é ela mesma uma característica das nossas relações de gênero. A historiadora Mary Beard diz que a própria definição social da masculinidade na cultura ocidental é associada à capacidade dos homens de silenciar mulheres. Na nossa cultura, crianças são ensinadas que se tornar “homem” significa falar mais alto, interromper, mostrar autoridade e provar-se o tempo todo. Então é realmente desafiador fazer com que muitos dos homens escutem, pois isso contraria sua própria socialização e sua forma socialmente aceita de existir no mundo.

Além disso, qualquer ser humano tem mais facilidade de compreender e se conectar com aquilo que é familiar do que com o que é distante da sua experiência. E a experiência das mulheres normalmente é estranha e distante para muitos homens. Por esses motivos, suspeito que para que a aproximação seja efetiva, ela precisa assumir a forma de um diálogo: podemos perguntar a eles o que significa para eles ser “homem”, o que é masculinidade, a que tipos de coerções sociais eles estão sujeitos e então tentar demonstrar como essas coerções limitam seu horizonte de experiências e às vezes até matam e adoecem — aos outros e a si mesmos. Assim, talvez se abra um caminho para conectar as experiências e os horizontes políticos.

É POSSÍVEL EDUCAR OS MENINOS COM VALORES FEMINISTAS E ESTIMULAR NELES TRANSFORMAÇÕES?

Assim como Simone de Beauvoir afirmou que “não se nasce mulher, torna-se”, acredito que é perfeitamente razoável dizer que “não se nasce machista, torna-se”. Nenhum ser humano nasce determinado por uma essência. Por isso é que o olhar para a infância é tão importante. Diversos processos que acontecem na infância estimulam a construção de diferenças que depois se transformam em hierarquias. Em nossa sociedade, ser “menino” é ser incentivado à agressividade, à demonstração de poder, ao domínio do espaço e do outro, à repressão dos sentimentos e ao controle de formas não normativas de gênero e sexualidade. Muitas vezes, forja-se um “menino” através de práticas de disciplina ou castigos físicos bastante cruéis. Nesse sentido, é fundamental refletir sobre as violências que acontecem em espaços como a família, a vizinhança e a escola, que frequentemente produzem homens machistas e violentos. O olhar feminista pode contribuir para essas transformações, especialmente se mirar não só a construção social da feminilidade como também a da masculinidade.

Entrevista concedida por Verônica Toste a Helena Gomes (Comunicação — UERJ), 07/2019

Imagem de divulgação do filme “Moonlight”, vencedor do Oscar 2017.