A ideia de um “matriarcado” original e pré-histórico anima a imaginação e está na base de várias teorias feministas, desde os anos 1970 até a atualidade. No centro dessa ideia residem idealizações da maternidade, estereótipos e a atribuição de características positivas supostamente essenciais e inatas às mulheres. Sua sustentação em círculos não-acadêmicos tem dependido também da rejeição a abordagens críticas de evidências científicas em favor da intuição e da crença. No artigo “Pequeno histórico do ‘matriarcado’ como hipótese para a interpretação da história”, recém-publicado por Lolita Guerra, professora da Uerj e pesquisadora do LabGen e do CCCP-PréK, retraça as aparições dessa hipótese na literatura desde sua formulação pelo classicista Johann Bachofen no século XIX até a sua transformação no século XX, discutindo seus problemas teóricos e metodológicos.

“Ao longo de sua história na modernidade, a hipótese do matriarcado pré-histórico combinou três operações de identificação hoje inaceitáveis: entre mito e história; entre sociedades pré-históricas e sociedades modernas ágrafas e não-europeias; entre status religioso (no mito, no culto) e status político e econômico. Apesar das transformações disciplinares que hoje impedem identificações como essas, por dentro e às margens das ciências humanas o matriarcado pré-histórico se constituiu como um paraíso perdido das mulheres, cuja memória teria sido ocultada pelo patriarcado graças ao monopólio masculino da escrita da História”.

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